Você pode mudar o mundo se mudar a si mesmo!

Você pode mudar o mundo se mudar a si mesmo!

 

Por: Dolores Affonso

Saudações Viajantes!

Hoje quero continuar contando um pouco sobre mim e minhas aventuras!

Aos 15 anos, já no ensino médio, conseguimos enfim o dinheiro para fazer os óculos e fomos ao oculista numa ótica. Após vários pares de lentes, o médico ficou estressado e me disse que não era possível eu não enxergar as letras com nenhuma lente. Eu simplesmente não via nada mais do que um borrão iluminado. Por fim, decidiu fazer um exame de fundo de olho e avisou minha mãe que eu parecia ter uma doença degenerativa da retina chamada Retinose Pigmentar e que poderia acordar cega no dia seguinte. Aconselhou minha mãe a me levar ao Instituto Benjamin Constant (IBC) o mais rápido possível.

Com aquela bomba no colo, minha mãe me levou em vários outros oculistas e oftalmologistas e nada diferente era dito. Conseguimos a consulta no IBC e lá fomos nós. Após muitos exames, fui encaminhada para outro hospital, o Instituto Brasileiro de Oftalmologia (IBOL) e, após uma bateria interminável de exames, que durou semanas, o médico jogou uma nova bomba no colo de minha mãe, dizendo: “Sua filha tem uma doença degenerativa da retina que se chama Stargardt e ela vai ficar cega de uma hora para a outra. Por isso, não pode fazer mais nada e deve ficar em casa sob cuidados”. Minha mãe retrucou e ele disse que a responsabilidade era dela de me deixar sair, pois corria risco de morrer atropelada e que, com aquela doença, eu não daria para nada na vida mesmo. Não adiantava estudar, insistir, pois não conseguiria nem trabalhar. O máximo que poderia fazer seria vender bala no portão.

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A volta por cima

Com lágrimas nos olhos, saímos de lá e fomos para a beira da praia, já que estava no IBOL de Copacabana. Lá, minha mãe me disse algo que nunca esqueci e que norteou a minha vida e minhas decisões, não me deixando desistir dos meus sonhos, nem nos piores momentos, nem diante dos maiores obstáculos. Ela me disse: “Filha, não acredite em nada do que esse médico disse hoje… de que você não vai dar pra nada na vida. Você pode contar comigo. Você tem sua mãe, seu pai e suas irmãs. A sua família vai estar com você sempre, em todos os momentos. Mesmo que perca a visão, não vai perder sua força, sua vida. Acredite. Você pode ser tudo o que você quiser e alcançar tudo o que desejar, basta você querer… basta você sonhar e lutar muito para fazer acontecer”.

E foi isso! Depois dessa conversa, decidi continuar sonhando e lutando para fazer com que meus sonhos se tornassem realidade e, ao longo de toda a minha vida, fui tornando cada um deles realidade com muito esforço e força de vontade.

E foi assim que nasceu o Congresso de Acessibilidade, meu blog Stargardt Brasil, a revista Acessibilidade e inclusão, os grupos no whatsapp etc. Ou seja, com o objetivo de ajudar outras pessoas a encontrarem seu caminho.

E foi assim, também, com um sonho na mente e uma bengala na mão, que consegui enfrentar uma viagem para a Europa (Espanha e Portugal) para iniciar meu mestrado. Durante essa viagem muita coisa aconteceu. Coisas boas e ruins! Mas uma coisa posso afirmar: a acessibilidade e inclusão plenas ainda estão muito distantes do ideal no Brasil e na maioria dos países.

Viajei pela companhia Ibéria para a cidade do Porto em Portugal, com parada em Madri para troca de aeronave. Nossa! Uma loucura.

Algumas coisas me chamaram a atenção já aqui no Brasil.

A falta de preparado das companhias e de seus funcionários no trato da pessoa com deficiência. E a, ainda incipiente, acessibilidade dos aeroportos brasileiros.

Já começamos com problemas na reserva da viagem. Mudaram meu voo e tive que brigar muito para encontrarem uma opção viável para mim.

Um dia, liguei para a Ibéria para poder informar minhas necessidades e qual não foi minha surpresa ao ouvir que, como invisual, teria que andar pelo aeroporto em cadeiras de rodas! Acreditam nisso? Me recusei, pois acho que devem ser destinadas às pessoas que realmente precisam, que não é o meu caso. Sei que as intenções eram as melhores, mas não iria ocupar uma cadeira de rodas que poderia estar sendo usada com uma pessoa que precisa realmente dela!

Conto mais sobre esta viagem em breve!

O mundo pode fechar uma mão, uma porta ou um sorriso para você, mas se você abrir a sua mão, a sua porta e o seu sorriso e seguir em frente, conseguirá mudar, se não o mundo inteiro, pelo menos o seu mundo.

 

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