Rota de fuga

Rota de fuga

Por Márcia Rostheuser

Bem, escrever um roteiro de viagem é dos meus temas favoritos, intrínseco a outros tantos, porém nesse caso, falo da rota como caminho que traçamos (ou traçam para nós) para fugir da realidade ou apenas encontrar sonhos de fotos azuis, sorrisos branquinhos e olhares perdidos no passado ou futuro.

Esses olhares por vezes estão fechados, mas vêem com o melhor de nós, a alma, a sensação, o sentir.
Lembro uma vez, numa micro cidade italiana chamada Monteriggioni, encantamento medieval entremuros, uma mulher ao sair da igreja de Santa Maria Assunta, parou por mais de 10 minutos, acompanhei em flashes esse tempo, e de olhos fechados contemplou o sol e a benção de poder estar ali, naquele momento, com aqueles últimos raios de luminosidade.

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…assim que ela saiu da igreja…

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… dez minutos depois.

Esse tempo perdido, é o que mais ganhamos em qualquer viagem, pois é quando temos como parar e “escutar” o que vem de dentro, o que faz sentido e sentir.

O crachá de turista, por vezes nos obrigada a passar rápido demais por lugares e situações, a não identificar anjos que só vem pra acolher e proteger aquele momento, a não perceber amores e achar até que chegamos tarde ou cedo demais.

Parar, tirar os sapatos e sentar em alguma grama ou muro apenas para observar, com os 5 sentidos, o que aquele cenário tem a oferecer.

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O que além da cultura óbvia daquele contato com o novo, o Cosmos nos apresenta ?

E sigo observando os povos, nós povo, carentes de afeto, de um toque ou de um olhar correspondido muitas vezes por alguém tão desconhecido ao ponto de não imprimir risco de sermos plenos e abrir o coração, movido pela esperança de que como nunca mais vamos encontrar, porque não ser genuíno e se expor de fato?

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Por que não se permitir apenas observar o vai e vem natural de uma pequena cidade ou de uma megalópole e com isso a maneira suave que nós, numa situação de férias, podemos nos permitir estar.
Sem relógios, pressões, e dúvidas que não passam da escolha de onde não vou cumprir um dever hoje.

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Onde vou não fazer nada e descobrir tudo que posso ser…

Escutar o ritmo calmo das coisas que seguem apressadas em nosso cotidiano.

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Sentar e jogar conversa fora, com quem quer que seja, sem olhar o relógio ou o nefasto celular nos permite treinar o coração para a presença, o não julgamento e nos dá uma lucidez ímpar sobre o que de verdade na essência somos, além daquele ângulo, estrategicamente pensado para impressionar a nós mesmos, num álbum digital qualquer.
As viagens são feitas de sonhos e respostas, nem sempre na mesma proporção.

Viajamos para fugir de rotina, horários, pessoas e deixar de estar mimetizado ao cenário cotidiano, por um tempo.
Se permitir deitar num chão qualquer, mimetizado agora num visual inusitado e surpreendente até para você mesmo.

Se permitir.
Esse é o grande código de acesso a uma mudança, uma evolução.
Mesmo que seja simplesmente você conseguir ficar sozinho com você por uns pares de dias.

E achar isso muito confortável.
Experimentar.

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Vencer medos, assumir desejos, mudar o rumo de qualquer prosa interna, ousar ser melhor, naturalmente.

Estando aberto a entrega, ao estado de estar presente, e a entender que isso é mais importante que o número de fotos, de museus visitados ou restaurantes da moda, nós dá a possibilidade de fazer a maior viagem, em cada uma das viagens, que tivermos a oportunidade de fazer.

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