Fúria no Promenade

Fúria no Promenade

A boemia se entristeceu em 2015. O passeio do bon vivant sempre se deu em lugares de boa memória. O joie de vivre está ligado a lugares de passados sólidos, sem muito espaço para futurices. O futuro, frio e cru, se dispõe mais a distopias. Quem já assistiu ao Robert de Niro sabotando tudo no Brazil, o filme, ou o mascarado Foley explodindo o parlamento inglês em V for Vendetta, deve ter torcido muito pelos dois e pela destruição de cidades amargas, tristes. Muito diferente do realismo da Nova Iorque Sitiada que, em 1998, já apresentava a angústia de uma cidade cosmopolita de joelhos diante do terrorismo. Ali, o choque está no ônibus, no teatro, na happy hour tão característicos da grande maçã. Os atentados de 2015 em Paris tornaram a cidade, mais uma vez, nostálgica e idílica. Os cronistas relatavam lembranças e deleites na cidade luz, reafirmando a certeza, talvez abalada, um dia dita pelo Rick em Casablanca e relembrada pelo Dapieve uma semana após – de que nós sempre teremos Paris. Mais do que ameaçar vidas, as bombas ameaçavam sonhos. Distante tanto do Sena quanto de Palmira, meus alunos questionam sobre motivações e medos, sem se darem conta do quanto estão perto disso aqui mesmo, às margens do Rio. Poderes paralelos estabelecidos com alto nível de crueldade, jogando uma sombra de medo sobre toda uma comunidade, ao mesmo tempo que alicia tantos garotos para os sabores voláteis da violência. O balneário apenas estremece quando raros ônibus se incendeiam ou hordas atravessam suas areias como o fantasma da torrente possível, da barragem que um dia pode ruir e enlamear todo o boulevard atlântico. Mas o mal, para eles, hoje está deslocado para um outro lugar. Essas cidades fantásticas, que escondem em seus subúrbios, periferias e encostas de morros os pesadelos elaborados a digestão de toda gordura produzida pelo sistema capitalista industrial, não permitem que experimentemos, no nosso voyerismo de alta temporada, o gosto do temor, do pânico incubado. Não adianta incluir na modalidade um passeio de jipe por uma favela pacificada. Só a arte possibilita isso. Pintura, literatura, fotografia certamente produzem o cenário perfeito para nos permitir visitar as angústias que moram nessas cidades. Para os meus garotos, doses homeopáticas de ficção produzida pelo cinema, combinadas com um pouco de romance e efeitos pirotécnicos, suavizam um quadro sobre o qual muitos já vivem, mas que a distância e a fantasia talvez nos permitam discutir o assunto. Escolhemos esse ano visitar Panem, uma capital entre Roma e Washington recheada dos abusos dos meios de comunicação, dos efeitos da propaganda política, do personalismo maniqueísta e, mais do que tudo, da brutalidade atemporal do Estado. O massacre de curdos e sírios está lá. O heroísmo suicida, também. Os bebês oferecidos em sacrifício, seja entre as grades do palácio ou das encostas do Mediterrâneo não nos deixarão esquecer que em algum lugar, em algum momento, tudo aquilo pode ser bem real. Na próxima visita à Flórida, quem sabe já não encontremos um parque temático com as ruínas dos subúrbios devorados da Panem, as flâmulas fascistas decorando a praça de alimentação, os cromaquis dos vídeos que farão do visitante o próximo mártir. Uma Dismaland domesticada, um Banksy case de marketing. Quem sabe assim não possamos esquecer toda a dor que ainda pulsa em Paris e possamos, mais uma vez, voltar a ter a alegria de viver.

Marcelo Freire