Belini Gourmet

Belini Gourmet

Estátua do Bellini

 

Por Marcelo Freire

Holofotes intensos, multidão de cadeiras azuis e cachorro-quente. Estávamos no centro do mundo, ou pelo menos aquilo que um dia foi o umbigo do meu imaginário. Era a segunda vez no novo Maracanã, a reencarnação bilionária daquele onde já fui reverenciar ídolos, tive catarses mágicas e vivenciei taquicardias alucinantes. Agora, nossa experiência pintava mais como um passeio no shopping. Entrada de boutique, corredor de hotel – não me lembro da última vez que vi tanta gente educada junta, como a simpática ascensorista que nos conduziu ao andar de cima onde seríamos recebidos num camarote com cara de stand de feira de negócios. O espetáculo apresentado divertia, afinal o estádio era padrão Fifa e os times estavam elegantes em uniformes high techs. Mas a emoção só viria com o cachorro-quente que me remeteu à infância, quando meu pai me apresentara aquele templo assim como eu estava fazendo com minha filha. Contei essa história do lanche para ela, e pensei que isso aqui nunca será Manchester, Liverpool ou Londres, muito menos chegará a ser uma sombra do Nou Camp – se você procura uma ópera que esteja de acordo com o teatro, vá até lá. Mas também jamais seremos os mesmos. O passado foi demolido, e só restou dele uma caixa de isopor da Geneal e a saída. Ao final, deixei a simpática ascensorista de lado e rumei com minha filha para a longa rampa, o último refúgio de um passado glorioso. Duas sugestões para os administradores do estádio: se quiserem um restaurante envidraçado sobre o gramado, coloquem o nome de Belini Gourmet. Se quiserem uma boa lembrança no seu museu, coloquem uma carrocinha de hot dog na sua porta.

 

Marcelo Freire