Amanhã

Amanhã

Museu do Amanhã - Rio de Janeiro - RJ
Museu do Amanhã – Rio de Janeiro – RJ

O jornal de domingo pousa na praça, mira o horizonte e pensa sobre o Amanhã. Assim mesmo, com maiúscula, já que faz um trocadilho com sua função ao ser posto como nome de um museu. Carioca é desse jeito, gosta de uma gracinha. O Museu ao seu lado chama-se Mar – outra gracinha bem carioca, não? Sobre a praça que está em frente à fachada, flutua um fantasma que serve de tema para a matéria. A estátua do empresário do tempo do império, meio esquecido, marca o ponto de entrada da cidade. No cais à beira-mar chegavam pessoas, produtos e impostos. Hoje dá para vislumbrar a vocação da cidade ancorada nos quartos flutuantes que marejam por ali. Foi a partir daquele porto que a Urbi fez sua transformação, sua pretensão moderna, planejada, científica. Quando você for à praça Mauá, dê uma olhada para a outra ponta da avenida que nasce naquele ponto. Pense que ela foi construída para representar a Paris dos trópicos, um pequeno show para o sujeito que desembarcava naquele cais em seu primeiro toque na capital da república. Aquela praça era apenas a concentração para um desfile pela avenida. Os prédios alegóricos, as fantasias nas vitrines, os adereços do mobiliário. Ao final, a grande apoteose, na praça das artes, da política, do povo. Povo esse que se dispersava pela avenida Beira-Mar e rumava para a insipiente Zona Sul. Só que não era disso que falava o jornal, mas de como o Mauá da estátua da praça anda meio abandonado. Um ídolo capitalista esquecido? Um empresário das indústrias relegado? Mais uma vez, aconselho que olhe para a outra ponta da avenida. O asfalto nos leva a um obelisco sem nome ou paternidade. Mudo, ele aparenta estar ali apenas para reverenciar a técnica, a racionalidade, a ciência. Se Mauá pudesse vislumbrar o monumento, saberia que a trilha representa uma escolha. Os empreiteiros responsáveis pela nova cidade, os donos daquele amanhã, escolheram a sombra, os bastidores. Preferiram ficar fora dos holofotes, e levaram junto com eles qualquer pretensão de expansão tecnológica. Especialistas em perfumaria, deixaram o futuro cada vez mais distante. Naquele obelisco já foram amarrados os cavalos de um ditador; em frente a ele picuinhas políticas derrubaram um palácio. Abaixo, corre um metrô ridiculamente primário. Meio escura essa fronteira entre a promessa do futuro e os vícios do passado. As grandes obras, por um bom tempo, deixaram o Rio. Mas os patrocinadores dos monumentos das extremidades da Avenida Rio Branco seguiram seu apreço pelo poder e pelo silêncio. Pelo menos até agora.

Marcelo Freire